Talentos ocultos, histórias inspiradoras

Até agora o cinema esteve ocupado falando sobre La La Land. Não era para menos, uma fotografia belíssima, uma trilha sonora incrível, atuações impecáveis e referências geniais a outros célebres musicais. Contudo, o cinema ainda dará muito mais o que falar em 2017.

Em fevereiro, estreará no Brasil “Hidden Figures” ou “Estrelas Além do Tempo”. O filme que estreou em janeiro nos EUA já arrecadou mais de 60 milhões de dólares, desbancando nada menos que “Star Wars: Rogue One”. O longa conta a história real de Katherine G. Johnson, uma matemática que foi contratada pela NASA para ajudar seu país na corrida espacial, mas que teve dois empecilhos em seu caminho: sua cor e seu gênero.

O contexto é o dos Estados Unidos dos anos 60. Em pleno vigor da lei segregacionista Jim Crow, quando os negros nem se quer podiam usar o mesmo banheiro que os negros, um negro físico e cientista espacial seria impensável. E ainda que as mulheres pudessem trabalhar, não era de muito bom tom uma mulher trabalhar em “coisas de homem” como engenharia ou física. Mas G. Johnson foi contra o status quo, sendo uma das mais geniais astrofísicas da corrida espacial americana.

E a parte de toda a bela história, outros fatores fazem do longa um sucesso garantido. O primeiro deles é o elenco. O papel da protagonista ficou com Taraji P. Henson, globo de ouro de melhor atriz por Empire. E o casting conta ainda com Octavia Spencer, Oscar de melhor atriz coadjuvante por “Histórias Cruzadas” e com a cantora Janelle Monaé, voz ativa do movimento “Black Lives Matter”.

Outro importante ponto do filme é a trilha sonora, inteiramente feita por negras e negros no R’n’B. Pharell Williams, Alicia Keys, Mary J. Blige, Lalah Hathaway, Kim Burrell e, é claro, Janelle Monaé.

Por fim, além de dar reconhecimento às “figuras ocultas” da história, “Estrelas além do tempo”, também promove uma reflexão: Será que muita coisa mudou? Até hoje, apenas 66 mulheres americanas receberam PhD em física, enquanto o número de PhDs homens e brancos sobe para 22,172. E além de promover uma reflexão, o filme também inspira.

Um dos casos de inspiração que merece ser citado é o de Taylor Richardson, uma americana de 12 anos que faz parte do Student Space Ambassador, um programa que estimula jovens a estudar o espaço. Taylor assistiu “Hidden Figures” pela primeira vez em uma sessão especial na Casa Branca e ficou tão comovida que teve uma ideia: levar 100 garotas negras para assistir ao filme. Ela começou uma campanha de arrecadação online com a meta inicial de 2.600 dólares, mas conseguiu ultrapassar os 10.000. Com o dinheiro que sobrou, a jovem quer promover outras sessões e seguir inspirando meninas a seguirem suas ambições.

 

Gretchen, memes e a imensidão do Brasil

Os memes e GIFs da Gretchen foram uma das não muitas coisas boas que aconteceram em 2016. Que aconteceu e vai continuar acontecendo em 2017. Ninguém vai se cansar tão cedo dos memes da famigerada “rainha do bumbum”. Com as piadas, Gretchen “foi ressuscitada”, e não foi a primeira vez. Com mais de 30 anos de carreira, a cantora já foi lembrada e esquecida uma porção considerável de vezes. Gretchen já foi pornô, virou evangélica, teve cinco filhos, perdeu um, e adotou mais um. Gretchen é uma brasileira tão real que parece inventada.
A frase não é minha, é do documentário “Gretchen Real Estrada”, que retrata a vida da cantora, mais especificamente seu ano de 2008, quando foi candidata a prefeita. Já sei o que você deve estar pensando: É sério que estão recomentando um documentário sobre uma mulher que ganhou fama unicamente por cantar músicas bregas e mexer suas ancas? Mas não, o filme vai muito além. A mãe da polêmica Thammy é só um pretexto para falar da política no Brasil e da imensidão deste país. Contudo, a política que é tratada no filme passa bem longe de qualquer Temer, Dilma ou “House of Cards”.
Fala-se da política que é feita em cada cidade pequena no interior desse imenso Brasil. Uma política em que a candidata trabalha de segunda a sexta em sua campanha e aos sábados e domingos em circos itinerantes. Uma política que há algumas compras e votos e muito eleitores loucos para vender. Uma política que é feita com mais cara de pau do que qualquer outra coisa. Uma política que seria trágica se não fosse cômica e seria cômica se não fosse trágica.

O longa de 2010 é dirigido Eliane Brum e Paschoal Samora.

Viva o profissional das fofocas!

Venho por meio desta defender o gênero mais injustiçado dos gêneros mais injustiçados do jornalismo mundial: o das fofocas e celebridades, o ramo do trabalho árduo e nobre de descobrir que Chico Buarque faz compras no Leblon e que Thammy Gretchen vai à praia no Rio.

Política, economia, esportes, cultura são quase deuses do olimpo jornalístico, áreas de quem é inteligente, de quem quer mudar o mundo. Enquanto isso a fofoca é um mero mortal, feito para cuspir  e para pisar. Revistas e colunas de fofocas são como aquela cachaça barata com cheiro insuportável e gosto péssimo – mas que não se consegue viver sem.

Para jogar pedras na manchete que anuncia que Latino está se casando pela 125ª vez os críticos dizem que a notícia é inútil, que mais desinforma que informa. Pois bem, sinto-me no dever de dizer que não há neste mundo coisa mais útil que poder cuidar da vida dos outros sem diretamente incomodar o outro.

Peço, por favor, que não venham com a hipocrisia de dizer que cada um deve cuidar da própria vida e não bisbilhotar a vida dos outros. Imagine por alguns segundos como seria o mundo em que cada um apenas prestasse atenção na própria vida. Pois bem, seria questão de tempo para a raça humana se dizimar: cuidando da própria vida nós veríamos que nos sobra peso, nos falta dinheiro, e nos resta problemas.

Todavia, ao cuidar da vida das celebridades e não – inteiramente – da sua a nossa vida fica melhor. Atire a primeira pedra quem não sentiu uma ponta de alívio ao saber que até Gisele Bündchen que é Gisele Bündchen foi traída. Parece que a vida de todos nós ficou melhor que por mais fina e discreta que seja Fátima Bernardes, ela também passa por problemas de relacionamento.

Além disso, as revistas de fofoca ainda trazem algumas vantagens sobre a fofoca tradicional, feita no portão de casa e no recreio da escola. Grande parte das celebridades sobre as quais se escreve nas revistas e nos blogs querem que escrevam coisas sobre elas e querem ser pauta de assunto na manicure, diferente da vizinha do 13 sobre a qual se costumava falar – ela coitada, não ganha nada, até perde, com as abobrinhas que são inventadas a seu respeito. E por mais que você comente que a Anitta está com lábios de peixe intoxicado, a cantora não vai deixar de fazer sucesso como a sua vizinha deixaria de conseguir um namorado por conta das fofocas a seu respeito.

Portanto caro leito, e caro colega estudante de jornalismo, vamos pensar duas vezes antes de subestimar a importância do profissional que se dedica a escrever sobre o heroico ato de Belo ao tentar resgatar sua amada após horas no banheiro. Talvez o papel do profissional da fofoca seja bem maior do que pensamos.

A jaula de ouro

 

Apesar de ser o drama de dezenas de brasileiros e de centenas de latino-americanos, muito pouco se discute sobre a questão imigrantes ilegais latinos nos Estados Unidos. Mas agora a tendência, com a vitória do homem que promete expulsar os latinos dos EUA, é de que se discuta mais sobre os milhares de homens e mulheres que vivem em condições desumanas em um país que se recusa a reconhece-los. Quem se interessa pela causa ou quer conhecer mais, existem alguns bons filmes e documentários sobre isso. Fiz uma lista com os melhores:

  • La Bestia – O documentário (que está no Netflix) narra a saga dos latinos que buscam atravessar a fronteira do México com os Estados Unidos pelo trem, o chamado “La Bestia”.
  • Sin Nombre – Uma ficção que se não fosse por um detalhe ou outro poderia ser real. O filme narra a história de uma garota que larga tudo o que tem para tentar imigrar ilegalmente para os Estados Unidos e de um rapaz que tenta sair do México depois de matar o chefe de uma gangue local. Este também tem no Netflix.
  • La Jaula de Oro – Considerado o melhor longa da Guatamela, La Jaula de Oro conta a história de três jovens que sonham o “american dream”, mas que descobrem que este sonho pode ser um pesadelo. Também está no Netflix.
  • Do Lado de Cá do Muro – Não é exatamente um documentário, mas um episódio de um dos melhores programas da televisão brasileira, o “Passagem Para” que era exibido na Tv Cultura. Para quem gostar deste episódio, vale conferir os outros, o programa tem uma sensibilidade ímpar.

Não é nem filme, nem documentário nem episódio de série documental, mas achei válido colocar aqui no post a música que deu título ao filme “La Jaula de Oro” e que tem uma letra belíssima. A versão original é do grupo nortenho Los Tigres Del Norte, mas aqui coloco a genial versão de Julieta Venegas:

A sua cultura falará mais alto

Escrevi este texto pensando em você caro leitor que passou o dia de hoje comemorando a eleição de Trump. Comemorando a vitória do puro sobre o miscigenado, da civilização sobre a barbárie. Tenho um recado para você: Não importa o quanto você desvie do espelho e cuspa no prato, você vai sempre ser latino, brasileiro e misturado – até porque é impossível ser o penúltimo sem ser o último, ao menos que você habite nas longínquas tribos do Acre que ainda não tiveram contato algum com o homem branco, mas não acho que esse seja seu caso.

Sinto muito, mas não importa o quanto você insista que as últimas onze gerações da sua família eram alemãs, sua cultura falará mais alto e você vai sentir frio com 15 graus. Não importa o quanto você alise e pinte o cabelo da cor mais clara que achar na farmácia, sua cultura falará mais alto e você vai continuar com seus traços indígenas e africanos.

Não importa o quanto você não goste de música brasileira e só escute bandas de rock das festas mais “cool” de Nova Iorque, sua cultura falará mais alto e seu sotaque existirá por mais que você tente esconder. Não importa o quanto você despreze o “povinho” brasileiro, sua cultura falará mais alto e você terá os mesmos modos e trejeitos que todos eles.

Não importa o quanto você odeie os latinos, ridicularize sua cultura, se identifique mais com um francês que um uruguaio, sua cultura falará mais alto e todos os eleitores de Trump te colocarão no mesmo saco que o resto dos “sudacas”, “xicanos” e latinos.

Deste modo só restam duas opções: seguir admirando o que não é seu e que não te corresponde ou aceitar a beleza de sua cultura, a riqueza de seu povo. Aceitar a grandeza de um continente que sem pernas ainda caminha, que sente as dores mais fortes e pinta as cores mais belas. Aceitar que você vive em lugar onde todas as cores se unem no mais belo tango, no mais belo samba e na mais bela cumbia. Aceitar que sua cultura falará mais alto e ir além: fazê-la gritar.

A intolerância é démodé – Sobre a 42a SPFW

Terminou na noite de hoje a 42ª edição da Semana de Moda de São Paulo. Depois de anos, parece que o Brasil finalmente foi capaz de produzir uma moda de impacto, uma moda que é o que a moda deve ser: avant-gard, visionária e que é muito mais que pedaços de tecidos caros. O próprio conceito desta São Paulo Fashion Week é novo, as coleções que foram apresentadas nos desfiles já estão nas lojas. A ideia é “see now, buy now” (veja agora, compre agora), nada mais justo em tempos digitais em que compras são feitas no outro lado do mundo com dois toques.
Apesar das inovações na organização do evento pouco se esperava de novo nas passarelas (há anos o Brasil não consegue mostrar nada de extraordinariamente novo). A semana começou com um desfile da Animale mostrando pouca coisa nova. Um dia depois veio o que parecia ser o ápice da semana: a esperada estreia da grife “LAB”, assinada pelo rapper Emicida. De fato o desfile não decepcionou, trouxe a primeira inovação da semana (e talvez a primeira dos últimos anos).
A grife do rapper paulista trouxe roupas gender fluid – roupas que poder ser femininas, masculinas e nenhum dos dois – , com um estilo que misturava o dos samurais asiáticos com o dos rappers ocidentais. As roupas conseguiram aliar o estilo das t-shirts e agasalhos com temas e lemas do hip-hop (a maioria das peças desfiladas tinham a frase “I love quebrada” estampada) tradicionalmente vendidos pela LAB com peças mais sofisticadas e ainda assim criativas, como quimonos e saias longas.

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O cantor Seu Jorge desfilou para a LAB na 42a SPFW

Os modelos também foram uma novidade, desfilaram pela LAB homens e mulheres, em sua maioria negros, de de todos os tamanhos e alturas. Emicida trouxe o assunto da inclusão social para as passarelas, um assunto que há muito tempo deveria estar lá. O desfile resgatou a função de vanguarda da moda, rompendo barreiras muitas vezes impostas pela própria moda, como é o caso da imposição dos padrões estéticos dos modelos.

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Coleção foi inspirada no samurai negro Yasuke

Apesar de ter sido um ótimo desfile e já ter feito desta semana de moda uma semana diferente das anteriores, na quarta-feira veio uma ótima surpresa: o desfile de Ronaldo Fraga. Bem como Emicida, o estilista que já é veterano na São Paulo Fashion Week nos lembrou que moda não é para ser bonitinha. A moda, como toda expressão artística, tem, e deve ter, uma função social. O mineiro trouxe para o Theatro São Pedro (palco da estreia de Macunaíma em 1973) modelos transexuais que desfilaram no meio do público. Muito mais que um desfile, Ronaldo Fraga fez uma denúncia.

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Mais uma vez com desfile temático, o mineiro escolhe a transfobia como tema deste ano

“A média de vida de uma trans no Brasil é de 35 anos. Elas morrem devido à violência, suicídio ou pelo tratamento errado de fundo de quintal com hormônios. E ninguém fala nada. Elas saem das escolas aos 10 anos de idade por conta de bullying e não voltam mais. Não dá mais para ignorar isso.” disse o estilista em entrevista para Elle, revista que estampará pela primeira vez uma transexual em sua capa no mês de novembro.

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Algumas outras grifes também apresentaram roupas com uma identidade de gênero menos definida, mostrando o que deve ser o futuro da moda tanto nas passarelas quanto nas ruas. De resto pareceu ser mais do mesmo. Mas o recado foi dado: a moda será como a dança, a música, as artes plásticas, o teatro e as outras expressões de arte, mais um veículo para o grito dos excluídos. Intolerância já está démodé.

Ele é um gênio mas… quem é ele mesmo?

 

Pode parecer estranho, mas a premiação de Bob Dylan nesta semana teve exatamente o mesmo efeito que a morte do cantor de sertanejo universitário Cristiano Araújo na sociedade brasileira. Só que exatamente ao contrário. Bem como a morte do compositor dos sucessos “Hoje eu tô terrível” e “Bara bara” a premiação do dono das canções “Blowing in the Wind” e “Like a Rolling Stone” expôs um Brasil grande, desigual e que não se conhece nem se reconhece.

No ano passado, os fãs do goiano perderam um ídolo. Os portais de notícias de repente lembraram do cantor que há algum tempo não emplacava nenhum hit. A intelectualidade (ou a pseudo dela) nem ao menos sabia de quem se tratava. Zeca Camargo comparou a livros de colorir.

Já neste ano, os fãs de Bob Dylan aplaudiram o ídolo. Os portais de notícia de repente lembraram do cantor que há algum tempo não era mencionado. A maioria da população nem ao menos sabia de quem se tratava (ou apenas fingiu saber). Zeca Camargo afirmou se tratar de um dos maiores artistas de todos os tempos.

Caro leitor, peço que não se escandalize com a penúltima frase do último parágrafo. Não resta dúvidas de que Bob Dylan revolucionou a música e o prêmio é merecido. Mas não é nenhum absurdo não conhecer (ou não conhecer bem) Bob Dylan em 2016. Nos anos 70 era impossível falar em música sem tocar no seu nome, nos anos 80 era difícil não tocar, nos 90 era possível, nos 2000 era provável e nos 2010 seu nome caiu no esquecimento.

Não é nenhuma ultrajante ignorância não saber de Bob Dylan. O último livro sobre ele em circulação no Brasil foi editado há cinco anos atrás e teve uma tiragem menor que o das youtubers ou o de Gilberto Gil. As notícias sobre Bob nos últimos anos foram dignas de nota de roda pé. Nem ao menos sua recente parceria com os Rolling Stones no Desert Trip Festival foi amplamente divulgada. No Spotify, as músicas de Dylan foram ouvidas 500 vezes mais desde a premiação, mas ele não está nem entre os 200 mais ouvidos do aplicativo.

O argumento de que a “massa” não sabe o que é bom, também não tem validade: Johnny Cash, Chuck Berry e Frank Sinatra – artistas que inspiraram ou seguem um estilo bem parecido com o do compositor de “Knockin’ on Heavens door” – estavam a frente de Bob antes da entrega do Nobel. Rolling Stones, Eric Clapton e Beatles ainda estão.

Portanto, se era um ato idiota jogar pedras em quem não conhecia Cristiano Araújo em 2015 o mesmo vale para quem não conhece Bob Dylan em 2016. Ignorância mesmo é não conhecer pluralidade.